Fácil pôr adjetivos em nossas impressões cinematográficas, um pouco mais difícil é ir além dessas sensações adjetivadas.
Na brumas do horizonte se pergunta: quem vem lá?
No reino podre da Dinamarca, um Hamlet zombeteiro, aventuresco, patético e as vezes até apático, nos guia em direção à tragédia. Mas não nos enganemos, este personagem dramático, tal qual Édipo é ator e sujeito de sua historia.
Hoje, as coisas (ou as análises das obras) já não são tão simples assim. Se observarmos os dois personagens principais do filme (« sol na neblina ») quais as opções de análise quanto as motivações (para agir), vontades ou desejos? E quais as forças (sociais, políticas e econômicas) que os levam – em direção – à este nebuloso horizonte?
Um filme impiedoso, cruel e poético – aqui estão os adjetivos nos quais vou guiar este texto e assim fechar os pecados capitais desta análise fílmica.
Obs.: Comecei com uma « clássica » referência teatral, depois caí em uma « clássica » análise dicotômica, para finalmente mergulhar em « clássicos » adjetivos cinematográficos.
Impiedoso:
Um dia-a-dia banal para nosso personagem, ou seja, não vive com a corda no pescoço e está longe de curtir a vida em havaianas. O filme lhe mostra – o personagem – com a fria lâmina do tédio, da indiferença ou do medo perpetrados pela vida urbana – e não somente urbana, como veremos com o avançar do filme.
É com os personagens mais falantes, humorados e simpáticos que a lâmina desta impiedosa faca (cinematográfica) nos penetra o ventre. Neste momento acontece o seqüestro/assalto que todos nos (brasileiros) já vivemos, vamos viver ou tememos. Ele acontece de uma maneira quase tão banal ou apática quanto outros eventos cotidianos.
A mata atlântica (lugar da natureza e do desapego material - no caso o roubo do carro do personagem) é a passagem entre: a cidade atolhada de mercadorias e publicidade e o litoral, representado pela praia e nos dando a idéia de fuga pela linha do horizonte.
Neste momento o filme nos dá uma fugaz esperança com sua paisagem entre o claro e o escuro, entre a praia virgem e as crianças brincando. Ele, o personagem, espera pacientemente os clientes em um verão que supostamente chegará.
Mas entretanto surge uma segunda personagem, a menina, carregando consigo todas as dificuldades de uma família pobre e desagregada que representa para ela o pesadelo de um fim de infância.
Enquanto os bens de consumo e produtos de nossa sociedade ocidental passam ao longe do mar à cidade e vice-versa, aos habitantes deste desolado litoral, resta tornarem-se mercadorias, ofertando seus corpos e serviços. O filme definitivamente continua impiedoso, onde uma janela se abre uma porta se fecha e a penumbra permanece nos acompanhando ora nos ambientes, ora nos olhares.
Daqui em diante o filme nos presenteia com diálogos cruéis: diretos, irônicos e um tanto esclarecedores. Porém, não há saídas pelo dialogo, ele mostra a crueza das relações.
Toda aproximação entre personagens denota um jogo de interesses e nesta linda paisagem marítima desvenda-se nossa alma corrompida, que situa-se entre: « O quê você pode me dar e o quê eu posso tirar de você ».
Cruel, porque alguns personagens constatam a realidade ao redor e depois discorrem sobre ela em análises mordazes e críticas, mas finalmente não lhes resta que alimentar este sistema vicioso.
Que lógica esta por trás desta realidade? Para estes personagens – o policial e a dona do bordel – o motor do sistema está escondido. Não lhes interessa ou não lhes é dada a chave da compreensão desta sórdida e densa máquina de injustiças e exploração. A menina é vítima, dada sua idade e condição social e o homem, nosso personagem principal, tenta vagar livre em direção à um horizonte que provavelmente nunca virá.
Porém para nós, expectadores, o filme sussurra uma pista em sons e imagens: os enormes navios cargueiros – estes charmosos monstros que cortam nossa linha do horizonte em manchas de petróleo.
Muitas vezes nos pegamos observando poéticas paisagens em que o personagem tenta nos levar com seu olhar, insistindo em uma certa brancura e no alegre jogo das crianças.
Mas não sejamos ingênuos, neste lugar se rouba o futuro da menina que está afundada entre aqueles que – ironicamente – querem o seu bem e que dizem protegê-la e alimentá-la. Estes caranguejos - negociantes cruéis - estão por detrás das tristes imagens finais do filme onde num banco traseiro de um automóvel vemos os frágeis e amedrontados olhinhos da menina que partem como matéria-prima para se tornarem novamente mercadorias. Na densidão do horizonte, não se vislumbra caminhos ou direções e quando o filme começa à nos roubar a esperança... torna-se ainda mais impiedoso, cruel e poético.
por Fabio Kinas – Berlin 07 de julho de 2009










